Típica do frio, camomila brota no Cerrado e impressiona pesquisadores

À primeira vista, parece improvável. Afinal, a camomila costuma ser associada ao clima frio do Sul do Brasil e a campos europeus. No entanto, a pouco mais de alguns quilômetros do centro de Brasília, produtores rurais do Distrito Federal provaram que o Cerrado também pode florescer em tons de branco e amarelo. Com pesquisa, paciência e parceria com a Universidade de Brasília, a planta medicinal encontrou espaço, raízes e propósito no Planalto Central.
Mais do que uma experiência agrícola, o cultivo da camomila virou um exemplo concreto de como ciência, tradição e educação ambiental podem caminhar juntas. E, ao longo de duas décadas, essa história vem sendo contada não apenas pela terra, mas também por quem passa por ela.

Camomila começa a brotar no Cerrado e surpreende pesquisadores em Goiás. Foto: Divulgação
Durante o inverno brasiliense, quando as madrugadas ficam frias e os dias seguem ensolarados, a camomila encontra condições ideais para se desenvolver. A chamada amplitude térmica — diferença entre temperaturas mínimas e máximas ao longo do dia — cria um ambiente semelhante ao de regiões mais frias. Em algumas noites, os termômetros chegam a marcar 5 °C, cenário perfeito para a flor se abrir.
Além de abastecer o mercado de chás, a produção atende também à indústria de cosméticos, que utiliza o óleo essencial da planta em produtos de beleza e bem-estar. Com isso, o cultivo amplia as possibilidades de renda e diversificação agrícola no Distrito Federal.

Descoberta no Cerrado: camomila começa a se desenvolver em solo goiano. Foto: Divulgação
Uma chácara que virou laboratório vivo
O protagonismo dessa transformação está em uma chácara familiar que se tornou referência no cultivo de plantas medicinais. Ali, a camomila divide espaço com pelo menos outras 40 espécies terapêuticas, como hibisco, espinheira-santa, babosa e estévia. Essa diversidade não apenas fortalece a economia da propriedade, como também contribui para a saúde do solo e o equilíbrio ambiental.
A adaptação da camomila ao Cerrado só foi possível graças ao conhecimento técnico. Em parceria com a UnB, os produtores testaram manejos, observaram o comportamento da planta e ajustaram o cultivo às condições locais. Pesquisa aplicada, feita no dia a dia, com resultados visíveis no campo.
Educação ambiental que atravessa gerações
Mais do que produzir, a chácara também ensina. Há 20 anos, o espaço funciona como uma verdadeira sala de aula a céu aberto. Escolas do DF visitam o local para aprender sobre plantas medicinais, sustentabilidade e saberes tradicionais. Ao todo, mais de 300 estudantes já participaram das atividades.

Camomila é encontrada no Cerrado e levanta novas pesquisas sobre adaptação da espécie. Foto: Divulgação
O aprendizado vai além da botânica. A proposta é manter viva a cultura do uso consciente das ervas, aquela sabedoria que atravessa gerações. O “chazinho da avó”, o cuidado cotidiano, a relação respeitosa com a natureza. Tudo isso faz parte da experiência.
Durante a floração, o aroma da camomila toma conta do ambiente. E essa vivência sensorial ajuda a fixar o conhecimento. Para muitos alunos, é o primeiro contato direto com a planta que costumam ver apenas em sachês ou prateleiras de mercado.
Do plantio ao beneficiamento
O ciclo produtivo se completa na própria propriedade. Após a colheita, a camomila passa por um processo de beneficiamento em espaço adequado, garantindo qualidade e preservação dos princípios ativos. Esse cuidado agrega valor ao produto final e fortalece a autonomia do pequeno produtor.
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A experiência do DF mostra que inovação no campo não depende apenas de grandes estruturas. Com pesquisa, parceria e respeito ao meio ambiente, é possível romper limites geográficos e criar soluções sustentáveis.
Ao florescer no Cerrado, a camomila carrega mais do que propriedades medicinais. Ela leva conhecimento, memória e um novo olhar sobre o potencial da agricultura local.
