Brasileiro foi eleito papa em 1978, mas recusou o cargo

Ícone da televisão brasileira, a vilã de Vale Tudo retorna em 2025, mais atual do que nunca. Sua permanência revela o que persiste na estrutura de poder, preconceito e classe no Brasil

Fernanda Cappellesso
Por Fernanda Cappellesso
Brasileiro foi eleito papa em 1978, mas recusou o cargo
Dom Aloísio Lorscheider, cardeal brasileiro que presidiu a CNBB e o CELAM, teria sido eleito papa em 1978, mas recusou o cargo por motivos de saúde. Figura central da ala progressista da Igreja, foi símbolo da resistência católica durante a ditadura militar no Brasil.

O Brasil esteve mais perto do papado do que muitos imaginam. Em 1978, durante o conclave que sucedeu a morte do papa Paulo VI, o cardeal brasileiro dom Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza à época, teria obtido dois terços dos votos do Colégio de Cardeaismaioria necessária para ser eleito papa. Ao ser oficialmente consultado, teria recusado o posto, alegando motivos de saúde.

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A informação circula décadas nos bastidores do Vaticano e é reforçada por fontes eclesiásticas que atuaram próximas à Cúria Romana. Contudo, por se tratar de conclave, cujos votos e discussões são protegidos por sigilo vitalício, não confirmação oficial por parte da Santa . Ainda assim, historiadores e vaticanistas respeitados, como Marco Politi e Andrea Tornielli, mencionaram a possibilidade de que Lorscheider tenha sido o primeiro nome a alcançar a votação necessária, mas optado por não aceitar o papado diante de seu estado de saúde.

À época, ele havia passado por uma cirurgia cardíaca grave, com implante de oito pontes de safena, e alertava que sua condição física não lhe permitia assumir o trono de Pedro. O gesto de abdicação — mesmo não oficializado — é tratado como um dos episódios mais notáveis da história eclesiástica recente, e teria aberto caminho para a eleição do cardeal Karol Wojtyła, da Polônia, que se tornaria João Paulo II — figura central da Igreja Católica nas décadas seguintes.

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A força da Igreja no Brasil e o cenário político de 1978

O contexto histórico é essencial para compreender a dimensão da escolha e da suposta recusa. Em 1978, o Brasil vivia sob regime militar, e a Igreja Católica brasileira ocupava um papel de protagonismo na defesa dos direitos humanos, sobretudo por meio da atuação de bispos como dom Paulo Evaristo Arns (São Paulo), dom Hélder Câmara (Recife) e o próprio dom Aloísio. O trio era referência internacional, especialmente na ala progressista da Igreja, que buscava uma renovação a partir das diretrizes do Concílio Vaticano II (1962–1965), com foco na opção preferencial pelos pobres.

Presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), dom Aloísio era um nome respeitado na América Latina, na Europa e em Roma, sobretudo por sua articulação teológica, seu perfil pacificador e sua habilidade diplomática. Mesmo sendo progressista, mantinha diálogo com os setores mais conservadores da Igreja, o que lhe conferia uma posição estratégica no colégio cardinalício.

A suposta maioria de votos obtida por ele, ainda que não oficialmente reconhecida, é interpretada como reflexo da busca por um líder capaz de responder aos desafios da secularização, da Guerra Fria e das tensões internas na Cúria. O próprio Lorscheider, em entrevistas após o conclave, sempre tratou o episódio com discrição — sem confirmar nem negar —, reforçando o mistério que envolve sua posição naquele momento histórico.

O conclave de 2025 e os brasileiros entre os favoritos

Quase cinco décadas depois, o Brasil volta a ser citado entre os países de origem de possíveis papáveis. No conclave iniciado em maio de 2025, sete cardeais brasileiros estão entre os eleitores — o número mais expressivo da América Latina, à frente de Argentina, México e Colômbia. Embora nenhum deles seja considerado “favorito” absoluto, três nomes figuram entre os mais respeitados nos bastidores por suas atuações na Cúria Romana e nas comissões internacionais do Vaticano.

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A presença brasileira em alto número no colégio eleitoral é reflexo da força numérica e institucional da Igreja no país, que abriga a maior população católica do mundo. Segundo dados do Pew Research Center, mais de 120 milhões de brasileiros se declaram católicos, mesmo com o crescimento das religiões evangélicas. A CNBB mantém mais de 300 dioceses ativas e influência direta em temas sociais, econômicos e políticos.

A lembrança de dom Aloísio Lorscheider, nesse contexto, ressurge como símbolo de um Brasil que liderou moralmente a Igreja, mesmo sem ter alcançado o trono. A ideia de um papa brasileiro ainda é tratada com cautela por setores mais conservadores do Vaticano, mas não é mais considerada inviável — sobretudo com o legado latino deixado por Francisco.

Um legado que ultrapassa o papado

Dom Aloísio faleceu em 2007, aos 83 anos, no Mosteiro de São Bento, em Porto Alegre, deixando um legado de fé, resistência e abertura ao diálogo. Em seu testamento espiritual, recomendava à Igreja que jamais deixasse de “escutar o clamor do povo”, uma das ideias centrais da teologia latino-americana. Foi ele também quem defendeu, durante o CELAM de Puebla (1979), o combate à pobreza como missão evangélica e política da Igreja.

Nos arquivos do Vaticano, seu nome continua citado em compilações históricas e relatos informais como o único brasileiro que teria sido formalmente eleito papa, mesmo que por poucas horas. O gesto, mesmo envolto em especulação, é lembrado como exemplo de um homem que conhecia o peso de seu chamado e não confundia vaidade com vocação.

Hoje, enquanto a Capela Sistina permanece trancada e os olhos do mundo se voltam mais uma vez para o céu romano, a memória de dom Aloísio reaparece — não como lamento por uma oportunidade perdida, mas como evidência de que o Brasil, mesmo sem papa, exerceu o mais alto grau de influência espiritual e institucional no Vaticano.

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