Hotel histórico no Centro de Goiânia já hospedou presidentes e escritores famosos

Construído nos primeiros anos da capital, edifício em estilo art déco virou ponto de encontro da sociedade goianiense

Thiago Alonso
Por Thiago Alonso
Hotel histórico no Centro de Goiânia já hospedou presidentes e escritores famosos
Grande Hotel, no Setor Central. - Foto: Reprodução

Quem passa pela Avenida Goiás, no coração de Goiânia, pode até notar a fachada elegante em tons rosados, mas poucos imaginam quantas histórias estão guardadas naquele prédio. O antigo Grande Hotel de Goiânia é um dos edifícios mais simbólicos da capital e ajudou a escrever os primeiros capítulos da cidade que nascia no meio do Cerrado.

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Inaugurado em 23 de janeiro de 1937, quando Goiânia ainda estava em construção, o hotel foi o primeiro da capital e rapidamente se tornou ponto estratégico para receber autoridades, engenheiros, políticos e visitantes que vinham conhecer a nova cidade planejada de Goiás.

Na época, hospedar-se ali era sinônimo de luxo e modernidade. O prédio possuía três pavimentos, cerca de 60 quartos e quatro apartamentos considerados sofisticados para os padrões da década de 1930, além de banheiros com água quente e fria, restaurante, bar e até garagem — algo raro naquele período.

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O hotel surgiu como parte do grande projeto de modernização idealizado pelo médico e político Pedro Ludovico Teixeira, responsável pela transferência da capital do estado de Cidade de Goiás para Goiânia.

Naquele momento, a nova capital precisava de estruturas capazes de receber visitantes importantes e também empresários que chegavam para participar da construção da cidade. O Grande Hotel cumpria exatamente esse papel: servir como vitrine da modernidade que o governo pretendia mostrar ao Brasil.

O prédio também ocupava uma posição estratégica no centro urbano, entre importantes avenidas como Tocantins, Araguaia, Goiás e Anhanguera, reforçando sua importância na dinâmica da cidade que começava a se formar.

Arquitetura que marcou a identidade de Goiânia

Além da importância histórica, o edifício também é um dos marcos da arquitetura art déco na capital. O estilo, que ganhou força no mundo nas décadas de 1920 e 1930, chegou ao Brasil como símbolo de modernidade e progresso — valores que combinavam com o espírito da nova Goiânia.

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Grande Hotel, primeiro hotel de Goiânia. Foto: Hélio de Oliveira / Divisão de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura

Grande Hotel, primeiro hotel de Goiânia. Foto: Hélio de Oliveira / Divisão de Patrimônio
Histórico da Secretaria Municipal de Cultura

Linhas geométricas, volumes bem definidos e uma estética elegante marcaram o projeto do hotel, que rapidamente se tornou uma das construções mais emblemáticas da cidade.

Hoje, a capital goiana é reconhecida por possuir um dos maiores acervos de arquitetura art déco do Brasil, e o Grande Hotel faz parte desse conjunto histórico que ajudou a construir a identidade urbana da cidade.

O point da sociedade goianiense

Nas primeiras décadas de funcionamento, o hotel não era apenas um lugar para dormir. Ele se transformou em um dos principais centros sociais da capital.

O restaurante e o bar eram pontos de encontro da elite goianiense, onde políticos, empresários e artistas se reuniam para conversas, eventos e celebrações.

Grande Hotel foi o point goianiense. – Foto: Reprodução

Ali também aconteceram alguns dos bailes mais famosos da história da cidade. Festas de carnaval, eventos culturais e apresentações musicais reuniam moradores e visitantes em noites animadas que ajudaram a construir a vida social de Goiânia.

Entre as atrações musicais que passaram pelo local estavam bandas como a Jazz Band Imperial e grupos ligados à Polícia Militar, que animavam as noites da capital ainda jovem.

Hóspedes famosos que passaram por ali

Ao longo dos anos, o Grande Hotel recebeu diversas personalidades que visitavam Goiânia. Um dos nomes mais conhecidos foi o presidente Getúlio Vargas, que esteve na cidade durante os primeiros anos da capital.

Também passaram por ali o escritor Monteiro Lobato, criador do universo do Sítio do Picapau Amarelo, e o poeta chileno Pablo Neruda, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura.

Grande Hotel, em seus primeiros meses em Goiânia. – Foto: Reprodução

Outro visitante ilustre foi o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que esteve no Brasil realizando pesquisas sobre culturas indígenas e acabou passando pela jovem capital goiana.

Essas visitas ajudaram a consolidar o hotel como um dos principais pontos de hospedagem da cidade durante várias décadas.

O Grande Hotel era tão importante para a cidade que chegou até a inspirar uma obra artística. Em 1938, durante a estreia da revista teatral “Goiânia”, no Cine-Teatro Campinas, o prédio foi representado no palco como se ganhasse vida, cantando uma ária sobre os sonhos dos hóspedes que passavam por ali.

Outra curiosidade é que o hotel também foi palco do primeiro carnaval de Goiânia, reunindo moradores em festas que marcaram a vida cultural da nova capital.

Mesmo durante o auge do hotel, a história do prédio também teve momentos turbulentos. Em 1938, por exemplo, o governo chegou a cobrar oficialmente a empresa responsável pela administração do hotel por atrasos em pagamentos do arrendamento do imóvel.

Depois de décadas funcionando como hospedagem, o Grande Hotel deixou de operar como hotel e passou por transformações ao longo do tempo.

Grande Hotel chamava atenção na capital. – Foto: Reprodução

Em 2003, o edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), garantindo a preservação de sua estrutura como patrimônio histórico.

Hoje, o prédio abriga atividades culturais e também o Centro de Memória e Referência da cidade, dedicado à preservação da história de Goiânia e de sua formação urbana.

Mesmo com mudanças internas ao longo das décadas, a fachada permanece como um dos símbolos mais reconhecidos do centro da capital.

Um pedaço da história

Quase 90 anos depois de sua inauguração, o Grande Hotel continua sendo um dos marcos históricos mais importantes de Goiânia.

Para quem gosta de explorar o centro histórico, caminhar pela Avenida Goiás e observar o prédio é como abrir uma janela para o passado — um tempo em que Goiânia ainda era uma cidade jovem, cheia de sonhos e projetos para o futuro.

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