Filme “O Morro dos Ventos Uivantes” é bom?

Uma adaptação que provoca fascínio, estranhamento e debates sobre o filme "O Morro dos Ventos Uivantes" dirigido por Emerald Fennell

Kamilly Carvalho
Por Kamilly Carvalho
Filme “O Morro dos Ventos Uivantes” é bom?
foto:Divulgação/Warner Bros. Pictures

O ano de 2026 já se firma como um período de grandes adaptações literárias no cinema, e uma das mais comentadas é o novo longa “O Morro dos Ventos Uivantes”, dirigido por Emerald Fennell. A produção revisita o clássico romance de Emily Brontë, autora de Wuthering Heights, seu único livro  uma obra que, desde o século XIX, causa impacto por sua atmosfera sombria, trágica e profundamente emocional.

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Desde sua publicação, o romance recebeu inúmeras adaptações para cinema e televisão, incluindo a versão do cineasta A. V. Bramble e a clássica e memorável adaptação de 1939 dirigida por William Wyler. Em décadas mais recentes, destacam-se a minissérie de 2009 com Tom Hardy e Charlotte Riley, além do filme de 2012 protagonizado por James Howson e Kaya Scodelario. Como acontece regularmente com esse romance, a nova versão também provoca opiniões divididas.

A recepção do público e o desafio de adaptar uma tragédia

Até o momento, o filme soma 57% de aprovação no Google, 2,5 de 5 estrelas no AdoroCinema e 6.3/10 no IMDb. Os números revelam como é difícil capturar a essência de um romance tão denso  e, ainda mais, como é desafiador agradar um público que carrega a memória afetiva de um clássico literário.

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A obra é marcada por tensão, emoção, ego, amor e ódio. Desde o primeiro encontro entre Heathcliff e Catherine, percebem-se a brutalidade e a devoção que moldam essa relação profundamente destrutiva entre as famílias Earnshaw e Linton.

Catherine e Heathcliff em nova roupagem

Na adaptação de 2026, Catherine Earnshaw é interpretada por Margot Robbie e Heathcliff por Jacob Elordi. A trama acompanha o momento em que o pai de Catherine adota um garoto abandonado, a quem ela dá o nome Heathcliff recebendo-o quase como um animal de estimação, segundo as palavras do próprio patriarca.

À medida que crescem, Catherine e Heathcliff desenvolvem um vínculo íntimo e turbulento, marcado por tensão amorosa e destruição mútua. O rompimento surge quando Catherine decide se casar com o vizinho rico, ferindo Heathcliff de forma tão profunda que ele desaparece.

Contudo, a versão de Fennell escolhe suavizar grande parte da crueldade e da tragédia emocional que definem o romance. Para quem conhece o original, isso pode deixar lacunas perceptíveis.

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A liberdade criativa de Emerald Fennell

A própria diretora declarou: “Não posso dizer que estou fazendo O Morro dos Ventos Uivantes. Isso não é possível.” De fato, o filme assume essa liberdade. Fennell constrói uma obra entre aspas, reinterpretada, estilizada, com forte estética contemporânea e elementos que lembram romances adolescentes, cultura digital e relações hiperbolizadas.

É uma escolha arriscada e é exatamente isso que divide opiniões.

Um filme que provoca dúvidas e interpretações

Divulgação/Warner Bros. Pictures

Mesmo tendo gostado da produção, algumas escolhas do roteiro me deixaram confusa, e reconheço que parte dessa estranheza pode vir da minha própria falta de familiaridade completa com o livro original. Ainda assim, certas omissões me incomodaram de verdade.

Por exemplo: por que os cinco anos que transformam Heathcliff em alguém rico e educado simplesmente não aparecem? Fiquei me perguntando se isso foi uma decisão deliberada para reforçar as falas duras de Catherine sobre o passado dele, ou se acabou se tornando apenas uma lacuna pouco explorada.

Além disso, a postura constantemente áspera da serviçal em relação à Catherine e o comportamento quase sádico de Isabella soam desconexos dentro dessa narrativa específica. Talvez eu não tenha captado alguma intenção simbólica, mas, para mim, essas pontas soltas enfraqueceram partes importantes da trama.

Ainda assim, mesmo com esses estranhamentos pessoais, continuo achando que o filme tem valor dentro da proposta contemporânea, ousada e interpretativa que ele abraça.

Entre amor e rejeição: o impacto emocional permanece

Divulgação/Warner Bros. Pictures

Como apontou o comentário de Rodrigo Santos Brandão no AdoroCinema que reflete muito do que também senti , este não é um filme que pretende “seguir o livro à risca”. Ele tem a atmosfera, os personagens e o tom certos, mas constrói outra história a partir deles. E essa liberdade, gostemos ou não, é o que torna esta adaptação tão comentada.

A fotografia, a força do vento constante, a névoa e o figurino ajudam a criar uma ambientação marcante, que segura a narrativa mesmo quando o roteiro escorrega.

“O Morro dos Ventos Uivantes” uma adaptação imperfeita, mas instigante

Divulgação/Warner Bros. Pictures

É possível compreender a frustração dos fãs e, ao mesmo tempo, entender quem nunca leu o livro e consegue apreciar essa nova leitura. “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026) não pretende ser o livro de Emily Brontë. Pretende ser uma interpretação possível dele para os dias de hoje.

E por isso, vale a pena assistir e tirar suas próprias conclusões (ou frustrações).
Vá ao cinema, deixe-se envolver (ou irritar) e sinta por si mesmo esse vento que continua uivando na cultura, quase dois séculos depois.

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