Pequi sem espinhos vira febre e ganha força no agro de Goiás

Durante décadas, o pequi foi sinônimo de extrativismo e colheita sazonal no Cerrado. No entanto, essa história começa a mudar em Goiás. Com o avanço do pequi sem espinhos, o fruto símbolo da região entra em uma nova fase e passa a integrar um modelo de lavoura comercial planejada, com produção previsível, maior segurança no consumo e retorno econômico mais atrativo para o produtor rural.
Essa virada tem base científica. Pesquisadores da Embrapa Cerrados, em parceria com a Emater-GO, desenvolveram novas variedades do pequi após anos de estudos e seleção genética. O grande diferencial está no caroço sem espinhos, característica que facilita a extração da amêndoa, reduz riscos ao consumidor e amplia o interesse da indústria alimentícia.

O pequi mudou e agora rende mais no agro goiano. Foto: emater
Pesquisa transforma fruto símbolo do Cerrado
Mesmo sem os espinhos, o pequi mantém o sabor marcante, a coloração intensa e o aroma característico que conquistaram gerações. Além disso, a nova variedade apresenta polpa mais grossa e suculenta, o que aumenta o rendimento industrial e amplia o uso culinário, tanto no consumo in natura quanto no processamento.
Esse conjunto de vantagens ajuda a explicar por que o pequi sem espinhos começa a ser visto como uma cultura promissora dentro e fora de Goiás. A facilidade no manuseio e a maior segurança abrem espaço para novos mercados e fortalecem a cadeia produtiva.

Pequi sem espinhos sai do Cerrado e vira aposta milionária no agro. Foto: Emater
Cultivo planejado abre nova frente de renda no campo
Outro ponto estratégico está no uso das áreas de reserva legal. Desde os anos 2000, o plantio de pequi ocorre principalmente nessas áreas que o produtor é obrigado a preservar por lei. Na prática, o Cerrado passa a ser também espaço de produção sustentável, conciliando conservação ambiental e geração de renda.
Em Goiás, esse movimento já se reflete no mercado de mudas. O produtor e viveirista Mauro Filho, sócio da Plant Roots Viveiro Ambiental, comercializa entre 60 mil e 70 mil mudas de pequi sem espinhos por ano. A procura elevada mostra o interesse crescente dos agricultores pela cultura. Cada muda é vendida por cerca de R$ 150, valor muito superior ao do pequi comum.
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Mudas valorizadas e produção mais precoce
Além de vender mudas, Mauro também investe no cultivo comercial. Ele mantém uma lavoura com 4 mil pés de pequi sem espinhos, sendo que metade já está em produção. Segundo o produtor, a variedade é mais precoce e começa a produzir a partir do quarto ano, com safras bienais que facilitam o planejamento financeiro.
No Mato Grosso, o avanço segue o mesmo caminho. Municípios como Gaúcha do Norte já somam cerca de 60 hectares cultivados, com pomares que entraram em produção recentemente. A maioria utiliza mudas enxertadas, tecnologia que reduz o tempo de entrada em produção e garante maior uniformidade dos frutos.

Novo pequi transforma tradição do Cerrado em renda no campo. Foto: Emater
Pequi sem espinhos reduz pressão sobre áreas nativas
Em condições adequadas de manejo, o pequi começa a produzir entre quatro e cinco anos, com estabilidade produtiva a partir do oitavo ano. Uma árvore adulta pode render de quatro a cinco caixas de 30 quilos por safra. Apesar da rusticidade, técnicos alertam para a importância do acompanhamento nos primeiros anos, com adubação correta e controle de pragas.
Hoje, a produção nacional ainda é majoritariamente extrativista. Minas Gerais lidera com mais de 42 mil toneladas, quase todas oriundas de áreas nativas. Goiás e Mato Grosso somaram cerca de 3,4 mil toneladas em 2024, segundo o IBGE, volume que já começa a incorporar áreas cultivadas.
A expectativa de pesquisadores é que o cultivo tecnificado do pequi sem espinhos ganhe espaço nos próximos anos, reduzindo a pressão sobre o Cerrado e estruturando uma cadeia produtiva mais organizada, rastreável e integrada à agroindústria. Além do consumo in natura, o fruto abastece conservas e fornece óleo para as indústrias cosmética e medicinal.
