Cheia do Rio Vermelho reacende a memória de 2001 na Cidade de Goiás; entenda

A cheia do Rio Vermelho voltou a acender um alerta antigo na cidade de Goiás. Após horas de chuva intensa entre a madrugada e a manhã desta terça-feira (6), o rio transbordou, alagou ruas e alcançou áreas centrais do município, incluindo o entorno do prédio da prefeitura. Vídeos gravados por moradores mostram a força da correnteza e o avanço da água sobre vias históricas, cenário que imediatamente remete a um passado ainda muito presente na memória coletiva da cidade.
Diante da situação, o prefeito Aderson Liberato Gouvea (PT) usou as redes sociais para pedir que a população evite circular próximo ao leito do rio. Em uma gravação feita às margens do Rio Vermelho, ele aparece com a sede do Executivo municipal parcialmente alagada ao fundo. Segundo o prefeito, o volume de chuva registrado em poucas horas foi determinante para a rápida elevação do nível da água. Ainda que a chuva tenha dado trégua, o alerta permanece.

Foto: Higor César Ferreira
Água avança e mobiliza autoridades
A Prefeitura de Goiás informou que segue em contato permanente com o Corpo de Bombeiros e com os órgãos de monitoramento climático. Dados do Centro de Informações Hidrológicas e Meteorológicas da Semad (Cimehgo) apontam que foram registrados 115,6 milímetros de chuva em um trecho da bacia do Rio Vermelho, índice considerado elevado para um curto período de tempo. Sendo assim, a orientação é clara: evitar áreas alagadas e manter atenção redobrada, especialmente para quem mora próximo ao leito do rio.

Rio Vermelho sobe e desperta lembranças da enchente que marcou a Cidade de Goiás. Foto: Divulgação
Leia também: Goiânia confirma 23º Encontro de Folia de Reis em janeiro de 2026
Um rio que faz parte da identidade da cidade
O Rio Vermelho atravessa a cidade de Goiás e compõe parte essencial da paisagem urbana e cultural do município. Ele passa ao lado da antiga casa da poetisa Cora Coralina, é afluente do Rio Araguaia e nasce na própria região. Ao mesmo tempo em que simboliza vida e identidade, o rio também carrega uma história marcada por episódios de destruição, que ressurgem sempre que o volume de água foge do controle.
A enchente de 2001 que marcou gerações
O medo que hoje ronda a cidade tem raízes profundas. Em dezembro de 2001, uma forte chuva fez o Rio Vermelho transbordar de forma devastadora. O episódio atingiu diretamente o Centro Histórico, justamente no período em que a cidade havia acabado de receber o título de Patrimônio Mundial da Unesco. Igrejas, casarões e imóveis históricos foram danificados. A Cruz do Anhanguera, símbolo da cidade, foi derrubada pela força da água e se tornou a imagem mais emblemática daquela tragédia.

Entre fé, memória e água: o Rio Vermelho volta a preocupar a Cidade de Goiás. Foto: Divulgação
Dez anos depois, em 2011, o cenário voltou a se repetir. O rio transbordou novamente e atingiu ao menos 30 casas da área tombada, reforçando a sensação de vulnerabilidade dos moradores diante das chuvas intensas.
Memória viva e um problema ainda sem solução
Morador do Centro Histórico, o dentista aposentado José Borges Viana, de 71 anos, presenciou as duas maiores enchentes que castigaram a cidade. Ele lembra com detalhes dos momentos de desespero. Segundo ele, ruas inteiras ficaram submersas e casas próximas foram levadas pela correnteza. “Essa rua onde moro ficou toda alagada. A água não chegou a entrar na minha casa, mas a casa ao lado foi praticamente levada. As estruturas ficaram totalmente danificadas”, relembra.

Foto: Divulgação
Após os episódios mais graves, intervenções foram realizadas no leito do rio. Ainda assim, especialistas avaliam que o problema não foi resolvido. A professora Marlene Vellasco aponta o assoreamento do Rio Vermelho e o desmatamento das nascentes como fatores de risco permanentes. “A gente tem muita coisa a fazer ainda. O rio está assoreado, as nascentes estão desmatadas. Ninguém sabe quando pode acontecer uma nova enchente. A natureza é imprevisível. Toda vez que chove, é um pânico na cidade”, afirma.
Assim, a cheia registrada nesta semana não representa apenas um evento pontual. Ela reacende lembranças, reforça alertas e evidencia uma relação histórica marcada pela beleza do rio, mas também pelo medo constante de que a água volte a ultrapassar seus limites.
