Estudo aponta existência de estruturas subterrâneas sob as pirâmides de Gizé e levanta debate na arqueologia

Equipe internacional usa radar de penetração no solo para mapear estrutura inédita; especialistas alertam para cautela na interpretação dos dados

Fernanda Cappellesso
Por Fernanda Cappellesso
Estudo aponta existência de estruturas subterrâneas sob as pirâmides de Gizé e levanta debate na arqueologia
Pesquisadores afirmam ter identificado uma rede subterrânea sob as pirâmides de Gizé; descoberta pode revelar novos capítulos da história egípcia.

Uma nova descoberta sob as areias do Egito reacendeu o fascínio mundial pelas pirâmides de Gizé. Pesquisadores da Itália e da Escócia anunciaram, nesta segunda-feira (24), a identificação de uma suposta rede subterrânea de formações geológicas e estruturas não registradas anteriormente, localizada diretamente sob as célebres pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos.

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A investigação, liderada por cientistas da Universidade de Turim e da Universidade de Edimburgo, utilizou radares de penetração no solo (GPR, na sigla em inglês) e imagens de satélite para mapear uma área de quase dois quilômetros quadrados. De acordo com os primeiros dados divulgados, o sistema incluiria poços de até 640 metros de profundidade, túneis em espiral e duas grandes câmaras cúbicas, com cerca de 80 metros cada.

O estudo ainda está em fase preliminar e não passou por revisão por pares — processo essencial para validação científica. Mesmo assim, os pesquisadores defendem que os resultados obtidos por meio da combinação de sensores eletromagnéticos e dados de geoprocessamento representam um avanço no uso de tecnologias não invasivas em arqueologia.

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Salas de Amenti e a topografia sagrada do Egito

Durante a coletiva de imprensa realizada no Cairo, a porta-voz do projeto, Nicole Ciccolo, chamou a atenção da comunidade arqueológica internacional ao sugerir que as estruturas podem estar relacionadas às lendárias “Salas de Amenti” — um conceito místico citado em textos herméticos e atribuídos ao deus egípcio Thoth. Essas salas seriam, segundo a tradição, locais de sabedoria ancestral e transição espiritual, onde faraós e iniciados acessariam conhecimento sagrado.

— Este estudo redefine os limites da análise de dados via satélite e da exploração arqueológica de zonas protegidas — declarou Ciccolo. — As formações reveladas sugerem um planejamento subterrâneo sofisticado, anterior à construção da superfície que conhecemos hoje.

Entre os elementos identificados, destacam-se oito estruturas verticais semelhantes a pilares, sob a base da Pirâmide de Quéfren, interligadas por passagens que, segundo os autores, formariam um eixo geométrico alinhado às três pirâmides de Gizé. A hipótese é que o subsolo de Gizé tenha abrigado rituais religiosos ou até funções administrativas do Antigo Egito ainda não documentadas.

Comunidade científica reage com ceticismo

Apesar da empolgação provocada pelo anúncio, o estudo foi recebido com reservas por parte da comunidade científica. O arqueólogo Lawrence Conyers, professor da Universidade do Arizona e referência mundial em GPR aplicado à arqueologia, disse ao Daily Mail que as ferramentas atuais não possuem precisão suficiente para mapear com clareza estruturas localizadas a mais de 600 metros de profundidade.

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— Estamos falando de profundidades comparáveis às de edifícios de 200 andares. Nenhum radar de solo disponível comercialmente ou academicamente tem capacidade para esse nível de detalhamento. É um grande exagero técnico — afirmou Conyers.

No entanto, o pesquisador não descartou totalmente a existência de cavidades menores ou câmaras funerárias escondidas, construídas antes das pirâmides ou até mesmo adaptadas posteriormente. Segundo ele, apenas escavações físicas e sondagens geotécnicas autorizadas pelo Ministério de Antiguidades do Egito poderiam confirmar as interpretações do estudo.

Mistérios antigos, tecnologias modernas

As pirâmides de Gizé, construídas há mais de 4.500 anos, continuam sendo um dos maiores enigmas da arqueologia. Embora muito já tenha sido documentado sobre suas estruturas externas, a região subterrânea que as cerca permanece pouco explorada devido a restrições legais, riscos de desabamento e limitações técnicas.

Nos últimos anos, tecnologias como a tomografia de múons — usada em 2017 por cientistas japoneses e egípcios — revelaram uma câmara desconhecida na Grande Pirâmide, o que reforçou a ideia de que ainda há muito a ser descoberto sob as estruturas. O novo estudo avança nessa linha, utilizando GPR, sensores sísmicos e imagens hiperespectrais para propor um modelo tridimensional do subsolo da necrópole.

O Egito tem ampliado sua cooperação com universidades estrangeiras para modernizar os métodos de preservação e escavação. No entanto, qualquer intervenção física nas pirâmides ou em seu entorno depende de autorização direta do Conselho Supremo de Antiguidades, o que torna escavações de alta profundidade extremamente raras.

Próximos passos e revisão científica

Segundo os coordenadores do projeto, um artigo completo com a metodologia e os resultados será submetido nas próximas semanas à revista científica Nature Archaeology. A equipe afirma estar aberta a parcerias com instituições egípcias para uma eventual verificação por meio de escavações controladas.

Até lá, especialistas recomendam cautela na divulgação de interpretações mais ousadas, especialmente em relação à associação com mitos antigos ou estruturas de “civilizações perdidas”.

Para o egiptólogo brasileiro Leonardo Durães, da USP, a descoberta é promissora, mas ainda carece de validação:
— Toda grande revelação precisa de confirmação cruzada. Há precedentes de estruturas subterrâneas na região, como galerias e poços funerários, mas nada nessa escala. É preciso distinguir ciência de especulação — conclui.

Uma nova camada de mistério no coração do Egito

Mesmo diante do ceticismo, o anúncio trouxe novo fôlego ao fascínio global pelas pirâmides e ao debate sobre os limites da arqueologia moderna. Se confirmada, a existência de uma cidade subterrânea em Gizé pode reescrever parte do conhecimento atual sobre o planejamento urbano e espiritual do Antigo Egito — e reacender a busca por respostas que há milênios desafiam estudiosos e curiosos de todo o mundo.

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