Espetáculo em Goiânia troca o cisne por uma galinha e questiona o balé clássico

Nem cisnes. Nem tutus impecáveis. Muito menos princesas inalcançáveis. Em vez disso, uma galinha caipira. Desajeitada. Popular. Interiorana. E surpreendentemente poderosa.
É assim que a Nalini Cia de Dança estreia, em Goiânia, o espetáculo A Morte da Galinha Caipira, nesta terça (25) e quarta-feira (26), às 20h, no Teatro do Centro Cultural da UFG. A entrada é gratuita, mediante retirada de ingressos uma hora antes, e as sessões contam com interpretação em Libras.
A montagem se apropria, com inteligência e irreverência, de referências do clássico O Lago dos Cisnes e do solo A Morte do Cisne. No entanto, desloca totalmente o eixo simbólico. Em vez do animal nobre europeu, entra em cena a galinha do quintal brasileiro. Uma figura cotidiana. Simples. Mas carregada de significados.

Companhia goiana usa uma galinha como metáfora do Brasil profundo. Fotos: Layza Vasconcelos
E é justamente aí que mora o gancho: por que uma galinha caipira pode dizer mais sobre o Brasil do que um cisne importado?
Ao longo da obra, a companhia rompe com a lógica da perfeição técnica e da estética idealizada do balé clássico. Em seu lugar, valoriza o gesto imperfeito. O corpo comum. O movimento forjado na terra. E, sobretudo, os corpos historicamente afastados do palco.
O corpo que a história tentou calar
Com direção coreográfica de Valeska Vaishnavi, o espetáculo constrói uma dramaturgia que mistura teatro, improvisação e pesquisa de movimento. Tudo isso atravessado por humor, crítica social e um olhar sensível sobre o Brasil profundo.

Espetáculo gratuito mistura humor, crítica social e dança contemporânea no CCUFG. Fotos: Layza Vasconcelos
Além disso, a encenação propõe outro ritmo. Um tempo mais lento. Inspirado na cadência do interior. Um tempo que não corre. Que não performa para agradar. Mas que convida o público a respirar junto.
Essa escolha também é política. Ao criticar os padrões corporais eurocêntricos que moldaram o balé no Brasil, a Nalini afirma que outros corpos não só podem dançar. Eles devem. E precisam estar no centro.
Goiânia no radar da dança contemporânea
Fundada em 2016, a Nalini Cia de Dança construiu uma trajetória consistente, participando de festivais e mostras pelo Brasil. Já circulou por capitais como Brasília, Recife, São Paulo e Belo Horizonte. Além disso, soma no currículo obras reconhecidas e premiadas, além de oficinas e ações formativas.
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A estreia em Goiânia marca o encerramento de um projeto de manutenção cultural aprovado via Programa Nacional Aldir Blanc, o que reforça a importância do investimento público em arte e acesso cultural.

Foto: Ana Yoneda
E mais: o espetáculo chega em um momento importante. Em tempos de discursos sobre pertencimento, território e diversidade, a obra se torna um gesto artístico que dialoga diretamente com o agora.
Muito além do espetáculo
Quem for ao teatro não verá apenas uma apresentação de dança. Vai assistir a uma metáfora viva sobre identidade, desigualdade e resistência. Vai rir em alguns momentos. Vai refletir em outros. E, possivelmente, vai sair diferente.
Porque às vezes, para entender o Brasil, não basta olhar para os cisnes. É preciso ouvir também as galinhas.
Serviço
- Espetáculo: A Morte da Galinha Caipira – Nalini Cia de Dança
- Quando: 25 e 26 de novembro
- Horário: 20h
- Onde: Teatro do Centro Cultural UFG – Praça Universitária – Setor Leste Universitário
- Ingresso: Gratuito (retirada 1h antes)
- Acessibilidade: Interpretação em Libras
- Ação solidária: Doação voluntária de 1 kg de alimento não perecível
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