Goiano cria primeiro chocolate sem gordura do mundo e ganha destaque internacional

Uma pesquisa desenvolvida dentro de uma universidade pública em Goiás acaba de ganhar projeção internacional. O engenheiro químico Gustavo Rocha criou o que define como o primeiro chocolate zero gordura do mundo, desenvolvido a partir de um ingrediente pouco explorado da cadeia produtiva do cacau.
A inovação nasceu dentro da Universidade Federal de Goiás, onde o pesquisador fundou a startup Nutricandies e desenvolve atualmente seu doutorado em Ciência e Tecnologia de Alimentos.
Recentemente, o projeto foi selecionado para o Youth Impact: Because You Matter, iniciativa internacional da UNESCO que apoia jovens com soluções inovadoras para desafios sociais e ambientais.

Foto: Namie Yoshioka
O Curta Mais conversou com o pesquisador que desenvolveu o chocolate sem gordura
Em entrevista ao Curta Mais, Gustavo explicou que a ideia surgiu após visitas à cadeia produtiva do cacau, onde percebeu o desperdício de um subproduto natural do fruto.
“Eu sempre fui um cientista empreendedor e pesquisava formas de tornar o chocolate mais saudável. Quando visitei produtores de cacau, percebi o grande volume de subprodutos que são descartados. Um deles é o mel de cacau, um líquido naturalmente doce que escorre da polpa do fruto”, contou.

Foto: Namie Yoshioka
A partir dessa observação surgiu a ideia de transformar o ingrediente em base para um novo tipo de chocolate.
Diferentemente do chocolate tradicional, a versão desenvolvida por Gustavo não utiliza manteiga de cacau nem outras gorduras, responsáveis pela textura sólida dos produtos convencionais.
Por isso, o chocolate criado por ele possui uma textura cremosa e pastosa. Ainda assim, mantém sabor e valor nutricional.
Entre os ingredientes estão mel natural de cacau, fibra de maçã e cacau em pó desengordurado.
Um doce pensado para ser nutritivo
A pesquisa começou com um objetivo bastante pessoal. O pesquisador queria criar um alimento que ajudasse a combater um problema conhecido como “fome invisível” — quando pessoas têm acesso a alimentos, mas apresentam deficiência de minerais e nutrientes.
“Minha irmã mais nova sofria com essa questão. Então a ideia inicial era criar um ‘super chocolate’, uma guloseima rica nutricionalmente”, explicou ao Curta Mais.

Foto: Namie Yoshioka
Com o avanço da pesquisa, o produto mostrou potencial para atender diferentes públicos. Entre eles estão pessoas com restrições alimentares, intolerantes e consumidores que buscam opções mais saudáveis.
O chocolate desenvolvido apresenta baixo valor calórico — cerca de 37 kcal por porção — e reúne compostos antioxidantes, além de nutrientes como vitamina B3, potássio e fósforo.
Impacto também para produtores de cacau
Além da proposta nutricional, o projeto também tem impacto ambiental e econômico.
Isso porque o chocolate utiliza justamente um ingrediente que normalmente seria descartado na produção do cacau.
“Conseguimos dar novo valor econômico ao que antes era jogado fora. O produtor pode vender esse insumo e gerar mais renda”, explicou Gustavo.
Segundo ele, o aproveitamento do mel de cacau também contribui para reduzir o desperdício de matéria-prima e tornar a cadeia produtiva mais sustentável.
Reconhecimento internacional
A relevância da inovação levou o pesquisador a ser selecionado no programa Youth Impact: Because You Matter, da Unesco.
O projeto brasileiro passou por diversas etapas de avaliação conduzidas por especialistas internacionais e parceiros da indústria de alimentos.

Foto: Namie Yoshioka
Durante cerca de oito meses, os participantes recebem mentoria especializada, capacitação e apoio financeiro para desenvolver suas soluções.
Cada projeto selecionado recebe aproximadamente US$ 10 mil para executar as atividades.
Além disso, Gustavo deve apresentar o projeto em um encontro internacional na França, que reúne especialistas e representantes do setor alimentício.
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Ciência que precisa chegar às pessoas
Para o pesquisador goiano, um dos maiores desafios da ciência é sair do ambiente acadêmico e chegar à sociedade.
“Quando você acredita nas suas ideias, precisa mostrar isso para o mundo. Muitas pesquisas ficam presas dentro das universidades. A ciência precisa chegar às pessoas”, afirmou.

Foto: Namie Yoshioka
Ele também deixa um conselho para jovens pesquisadores.
“Se você tem uma ideia, tenha coragem de colocá-la em campo. Quando fazemos isso, sempre existe alguém que pode se interessar e transformar aquela ideia em algo útil para muita gente.”