Hospital setentão é o ponto de encontro entre história e medicina em Goiânia
Mais de 60 anos de pioneirismo, cuidado humanizado e excelência que transformaram a saúde pública em Goiás.

Um marco histórico em Goiânia e na medicina goiana
O Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG) é uma instituição que transcende o papel de unidade hospitalar. Desde sua fundação em 23 de fevereiro de 1962, o HC desempenha funções estratégicas em assistência médica, ensino e pesquisa, consolidando-se como um dos maiores e mais importantes hospitais universitários do Brasil.
Situado no Setor Universitário, região central de Goiânia, o HC nasceu como uma resposta à necessidade de ampliar os serviços de saúde para a população não coberta por previdência social. Hoje, com mais de 60 anos de história, o hospital representa um legado vivo de pioneirismo e dedicação à saúde pública.
As raízes do Hospital das Clínicas
A trajetória do HC começou antes de sua inauguração oficial. Em 1941, o governo de Goiás deu início à construção de um hospital geral para atender a população desprovida de assistência médica. No entanto, as obras foram paralisadas devido à escassez de recursos, e o prédio inacabado foi ocupado pela Escola de Engenharia.
Foi o médico Francisco Ludovico quem resgatou a ideia de transformar o local em um hospital. Contando com o apoio de seu pai, José Ludovico de Almeida, então governador de Goiás, e do presidente Juscelino Kubitschek, Ludovico liderou o movimento para que o edifício fosse destinado à saúde. Sua visão não se limitava a construir um hospital, mas também a criar uma Faculdade de Medicina em Goiás, inaugurada em 24 de abril de 1960.
O Hospital das Clínicas foi oficialmente inaugurado dois anos depois, em 23 de fevereiro de 1962, com 67 funcionários e 60 leitos. Inicialmente, oferecia atendimento em clínicas médicas, cirúrgicas e ortopédicas, além de funcionar como campo de estágio para os alunos da recém-criada Faculdade de Medicina.
As Irmãs Filhas da Caridade: Um Pilar na Estruturação do Hospital das Clínicas
A atuação das Irmãs Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo foi essencial para a consolidação do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG). Essas religiosas, pertencentes a uma congregação com uma longa tradição em assistência hospitalar e ensino de enfermagem, já desempenhavam papel crucial na administração da Santa Casa de Misericórdia de Goiânia. Quando o HC foi inaugurado em 1962, as irmãs trouxeram sua expertise para a nova instituição, assumindo funções administrativas, de enfermagem e até mesmo de assistência espiritual.
Estruturação Inicial e Contribuições Operacionais
O primeiro grupo das Filhas da Caridade a atuar no HC-UFG incluía figuras como:
- Irmã Luna: Superiora, responsável pela supervisão geral da atuação das irmãs e pela gestão hospitalar.
- Irmã Ângela (Maria da Conceição Viana): Diretora de enfermagem do centro cirúrgico, onde estabeleceu práticas pioneiras de organização e cuidado.
- Irmã Regina Lima e Irmã Ana Maria Lacerda: Encarregadas dos setores de enfermagem e clínica médica.
- Irmã Celeste Veloso (Maria Aparecida Veloso): Responsável pelos arquivos hospitalares, garantindo a documentação adequada das operações.
- Irmã Madalena Cavalcante e Irmã Luizinha: Administraram áreas essenciais como lavanderia, rouparia e a capela.
Essas religiosas desempenharam um papel central na organização das operações do hospital, que inicialmente enfrentava limitações de recursos e infraestrutura. A experiência das irmãs garantiu a criação de processos bem definidos para atendimento aos pacientes, treinamento de funcionários e gestão hospitalar.
Humanização e Atendimento Espiritual
Além das funções administrativas e operacionais, as irmãs trouxeram ao HC um enfoque humanizado no atendimento aos pacientes. Elas não apenas cuidavam dos aspectos técnicos da saúde, mas também se preocupavam com o bem-estar emocional e espiritual dos doentes. A capela do hospital, administrada pelas religiosas, tornou-se um espaço de acolhimento para pacientes e familiares, oferecendo suporte em momentos de dificuldade.
Esse caráter humanizador deixou uma marca indelével no hospital, criando uma cultura de cuidado integral que combinava excelência técnica com empatia e atenção às necessidades individuais.
Treinamento e Educação
Antes mesmo da inauguração oficial do hospital, em 1961, as irmãs lideraram o treinamento da primeira equipe de servidores do HC-UFG. Essas formações, realizadas nas dependências da Santa Casa de Misericórdia, prepararam os profissionais para lidar com os desafios de uma instituição hospitalar que ainda estava em processo de estruturação.
As Filhas da Caridade também foram essenciais na implementação de práticas modernas de enfermagem, influenciando diretamente a qualidade dos serviços prestados no HC. Sua expertise foi determinante para elevar o padrão de atendimento, especialmente em um período em que a formação técnica na área da saúde ainda estava se consolidando no estado de Goiás.
Impacto Duradouro
A presença das irmãs no Hospital das Clínicas foi tão significativa que seus métodos e valores continuam a influenciar a instituição até hoje. Elas não apenas ajudaram a superar os desafios iniciais do hospital, mas também estabeleceram as bases para uma cultura organizacional pautada na excelência e no cuidado humanizado.
Além disso, as irmãs contribuíram para fortalecer o vínculo entre o hospital e a comunidade, criando um legado que une ciência e espiritualidade. Sua atuação também foi fundamental para que o HC se tornasse um ambiente de aprendizado e formação de profissionais da saúde, moldando gerações de médicos, enfermeiros e outros especialistas.
O Caráter Religioso em um Hospital Laico
Embora o HC fosse uma instituição laica, a atuação das Irmãs Filhas da Caridade trouxe ao hospital uma dimensão religiosa que se manifestava na forma de acolhimento aos pacientes e funcionários. Essa dualidade, que combinava um ambiente técnico-científico com a prática de valores espirituais, consolidou a identidade única do HC nos primeiros anos.
Reconhecimento e Memória
A contribuição das irmãs é frequentemente lembrada nos registros históricos do hospital. Suas iniciativas pioneiras e o impacto de sua atuação tornaram-se parte do patrimônio imaterial do HC-UFG. Retomar a memória desse período é essencial para reconhecer o papel da Igreja Católica e das Filhas da Caridade no fortalecimento do sistema de saúde em Goiás.
Hoje, o trabalho dessas mulheres é celebrado como um exemplo de dedicação e compromisso, não apenas com a saúde pública, mas também com os valores humanos e espirituais que guiaram sua missão.
Avanços e desafios ao longo das décadas
Nos primeiros anos, o HC enfrentou desafios estruturais e financeiros significativos. Para atender à crescente demanda, a diretoria construiu pavilhões temporários e realizou reformas constantes. Durante o regime militar, em 1969, o interventor federal general Meira Mattos determinou a criação de um serviço de emergência no hospital, uma inovação para Goiânia na época.
Já na década de 1970, o hospital ampliou seus serviços com a incorporação de setores como Maternidade, Pediatria e Medicina Tropical, anteriormente oferecidos pela Santa Casa. A partir de 1984, com a revisão do estatuto da UFG, o HC foi desvinculado da Faculdade de Medicina e subordinado diretamente à reitoria.
Com a promulgação da Constituição de 1988, que estabeleceu a saúde como direito de todos, o HC reforçou seu compromisso com o atendimento gratuito e público por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
A modernização do HC
Entre 2013 e 2020, o HC passou por sua maior transformação estrutural. Um novo prédio, com 20 andares e mais de 44 mil metros quadrados, foi construído para ampliar a capacidade de atendimento. A obra, que custou cerca de R$ 150 milhões, foi financiada por recursos do Fundo Nacional de Saúde, da UFG, da Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares) e de emendas parlamentares.
Com a inauguração em 14 de dezembro de 2020, o hospital aumentou sua capacidade para 600 leitos, incluindo 120 leitos de UTI, além de um centro cirúrgico com 30 salas. A nova estrutura também inclui setores especializados, como:
- Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais com 15 leitos.
- UTI Pediátrica com 18 leitos.
- Maternidade de alto risco com 25 leitos.
- Centro de transplantes e hemodinâmica.
Espaços dedicados ao ensino e pesquisa também foram priorizados, com 13 salas de aula, dois auditórios e laboratórios de simulação.
Referência em ensino, pesquisa e assistência
O HC se destaca como um centro de excelência em formação acadêmica e pesquisa. Anualmente, mais de 1.500 profissionais de saúde são formados, incluindo médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, e terapeutas ocupacionais. Pesquisas pioneiras realizadas no hospital abrangem áreas como:
- Doença de Chagas (iniciadas em 1970).
- Neurologia (estudos sobre Parkinson e depressão).
- Cardiologia (cirurgias minimamente invasivas).
Além disso, o hospital é referência nacional em programas como o Núcleo de Neurociências, o Programa de Atendimento ao Chagásico, e o Centro Avançado de Diagnósticos da Mama.
O futuro do Hospital das Clínicas
Com uma localização privilegiada no coração de Goiânia, o HC continua investindo em sua expansão. Projetos futuros incluem:
- A abertura de um centro ultra-avançado de radioterapia com acelerador linear.
- Um novo prédio de ambulatórios.
- Expansão dos programas de transplantes de órgãos sólidos.
Para o superintendente José Garcia, o hospital não apenas cumpre sua função de atender a população, mas também se consolida como um símbolo de excelência e modernidade. “Cuidar do público com qualidade é nossa missão. Estamos sempre em busca de melhorias para oferecer a melhor assistência possível à sociedade brasileira”, afirma.
O Hospital das Clínicas da UFG não é apenas uma referência em saúde, mas também um símbolo da história e do progresso de Goiás. Combinando tradição e inovação, a instituição segue como um pilar fundamental para o bem-estar da população e a formação de profissionais de excelência.
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