O efeito colateral do Carnaval que só aparece quando a festa acaba
Horas em pé, maratona de blocos e exageros da folia podem trazer consequências que ninguém espera

O Carnaval é sinônimo de festa, mas também pode representar um aumento expressivo nas queixas de dor na coluna. Estudos indicam que, em algumas regiões do Brasil, os atendimentos médicos por dores nas costas crescem cerca de 30% durante o período carnavalesco. A Organização Mundial da Saúde estima que 80% da população mundial já teve ou terá dor na coluna ao longo da vida, e o Carnaval costuma funcionar como gatilho para crises agudas.
“O que observamos após o Carnaval é um aumento considerável na procura por atendimento por dor na coluna. No consultório, os quadros mais frequentes são lombalgia mecânica, contraturas musculares e piora de problemas discais que já existiam, muitas vezes desencadeados por horas em pé, excesso de caminhada, dança prolongada e fadiga física”, afirma o neurocirurgião especialista em coluna Túlio Rocha.
“O primeiro fator é permanecer muitas hofoliaras em pé ou caminhando atrás de blocos e desfiles. Esse tempo prolongado em ortostatismo aumenta a fadiga muscular e a sobrecarga na região lombar, o que favorece quadros de lombalgia”, explica o médico.
Ele destaca que o excesso de dança também pesa contra a coluna. “Muitas pessoas passam horas dançando sem preparo físico adequado, o que pode provocar estiramentos musculares, contraturas e exacerbação de dores já existentes.”
Segundo Túlio Rocha, o problema é biomecânico. “Em termos biomecânicos, o que acontece no Carnaval é a associação de sobrecarga prolongada, impacto repetitivo e instabilidade postural. Isso pode resultar em lombalgia mecânica, contraturas musculares e agravamento de doenças discais pré-existentes.”
O especialista chama atenção ainda para o uso de calçados inadequados. “Chinelos, sandálias sem suporte ou salto alto alteram o alinhamento corporal e transferem mais carga para a coluna, aumentando o risco de dor.” Fantasias e adereços pesados também entram na lista de vilões. “Eles aumentam a sobrecarga axial, que é a aplicação de força vertical ao longo do eixo da coluna vertebral, elevando a compressão sobre os discos intervertebrais.”
A postura durante a festa também influencia. “Inclinar o tronco para frente, compensar o peso do corpo de forma assimétrica ou dançar sem estabilização adequada da musculatura abdominal aumenta a pressão sobre discos e articulações vertebrais.” Ele acrescenta que fatores como fadiga, privação de sono e consumo de álcool reduzem o controle motor. “Isso aumenta o risco de movimentos bruscos, torções e quedas.”
Como prevenir as dores
“Prevenção durante o Carnaval significa combinar preparo físico, proteção postural, pausas estratégicas e redução de sobrecargas desnecessárias sobre a coluna”, orienta Túlio Rocha.
Ele recomenda que os foliões preparem o corpo antes da festa. “Atividades físicas regulares, especialmente exercícios que fortaleçam a musculatura abdominal e paravertebral, ajudam a proteger a coluna contra sobrecargas. Alongamentos leves antes de sair também contribuem para diminuir o risco de estiramentos.”
A escolha do calçado é considerada decisiva. “O recomendado é usar tênis ou sapatos com bom amortecimento e estabilidade, evitando chinelos, sandálias sem suporte ou salto alto por longos períodos.”
Durante a folia, o especialista orienta alternar períodos em pé com momentos de descanso. “Permanecer muitas horas seguidas em ortostatismo aumenta a fadiga muscular e favorece dor lombar.” Ele também recomenda atenção à postura ao dançar. “É importante manter uma posição mais neutra, evitando movimentos bruscos, hiperextensão do tronco e torções repetitivas.”
A hidratação constante é outro ponto reforçado pelo médico. “A desidratação afeta os discos intervertebrais. A hidratação adequada e pausas regulares ajudam a reduzir a fadiga muscular.” Sobre o consumo de álcool, ele faz um alerta direto. “O excesso prejudica o equilíbrio e o controle motor, aumentando o risco de quedas e movimentos inadequados.”
Tratamento e sinais de alerta
“Na maioria dos casos, o tratamento é conservador. O primeiro passo é reduzir temporariamente as atividades que geram sobrecarga e orientar repouso relativo, não absoluto”, explica Túlio Rocha. Ele acrescenta que podem ser associados analgésicos e anti-inflamatórios quando indicados, além de medidas físicas como gelo ou calor local, dependendo da fase da dor. “A fisioterapia tem papel importante, principalmente para relaxamento muscular, controle da dor e reequilíbrio da musculatura estabilizadora da coluna.”
O especialista reforça que alguns sinais exigem investigação mais detalhada. “Quando a dor persiste, é mais intensa ou vem acompanhada de sintomas neurológicos, como irradiação para as pernas, formigamento ou perda de força, é necessário aprofundar a investigação para descartar lesões discais ou outras condições que possam exigir tratamento específico.”
Para ele, o alerta é claro. “O Carnaval é um período de sobrecarga física importante. Com preparo, postura adequada e moderação, é possível aproveitar a folia sem transformar a festa em crise na coluna.”
