A verdade por trás de 365 Dias: o filme que chocou, seduziu e redefiniu os romances de máfia

Fernanda Cappellesso
Por Fernanda Cappellesso
A verdade por trás de 365 Dias: o filme que chocou, seduziu e redefiniu os romances de máfia
Michele Morrone como Massimo: o poderoso e sedutor mafioso que conquistou milhões de fãs em 365 Dias

Em março de 2020, a Netflix trouxe ao público o filme polonês 365 Dias, uma adaptação do romance homônimo de Blanka Lipińska. O que poderia ter sido apenas mais um título no catálogo da gigante do streaming se transformou em um fenômeno global. Com cenas ousadas, paisagens deslumbrantes e uma história que mistura máfia e romance, o filme rapidamente alcançou milhões de visualizações. Desde então, 365 Dias permanece no Top 10 da Netflix em diversos países, acumulando mais de 500 dias entre os filmes mais assistidos.

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Entretanto, o sucesso de público contrasta fortemente com a avaliação da crítica especializada, que não poupou o filme de duras análises, destacando falhas no roteiro, atuações fracas e uma narrativa que romantiza comportamentos abusivos. A produção, contudo, transcendeu a barreira das críticas, conquistando fãs ao redor do mundo e alimentando debates sobre sua influência cultural.

Neste artigo, exploramos o impacto de 365 Dias no universo do entretenimento, comparando-o com outros clássicos sobre máfia, analisando o fenômeno dos romances de máfia e tentando entender por que o filme é um sucesso de público mesmo sendo rejeitado pela crítica.

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O impacto de 365 Dias: números impressionantes

Desde seu lançamento, 365 Dias acumulou números que consolidam seu status como fenômeno global. Em apenas um mês, o filme registrou mais de 90 milhões de visualizações na Netflix, superando produções como O Irlandês (2019), de Martin Scorsese, e Bird Box (2018). A trilogia, que inclui 365 Dias: Hoje (2022) e 365 Dias: Finais (2022), continuou a impulsionar a audiência, garantindo à Netflix um retorno significativo.

Nas redes sociais, o impacto foi igualmente grandioso. No TikTok, a hashtag #365Days ultrapassou 10 bilhões de visualizações, enquanto cenas do filme inspiraram paródias, discussões e até debates acadêmicos. No Rotten Tomatoes, o filme ostenta 0% de aprovação da crítica, mas tem 29% de aceitação pelo público, evidenciando a discrepância entre os dois grupos.

Além disso, o livro de Blanka Lipińska, que deu origem ao filme, também viu suas vendas dispararem globalmente. A autora alcançou a lista dos mais vendidos em plataformas como Amazon, com traduções de seu trabalho disponíveis em mais de 20 idiomas.

Por que 365 Dias se tornou um sucesso?

A história de 365 Dias é uma fantasia que mistura máfia, poder e romance erótico. O enredo acompanha Laura Biel, uma mulher que é sequestrada por Massimo Torricelli, um poderoso mafioso italiano, que lhe dá 365 dias para se apaixonar por ele. O filme atraiu o público por vários motivos:

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  1. Escapismo visual: Ambientado em paisagens italianas deslumbrantes, o filme oferece ao público uma fuga da realidade.
  2. Estética sedutora: O carisma de Michele Morrone como Massimo e as cenas intensamente românticas capturaram a imaginação do público.
  3. Apelo emocional: A dinâmica entre Massimo e Laura, embora controversa, desperta fantasias de romance e paixão proibida.
  4. Marketing orgânico: A viralização nas redes sociais ajudou a promover o filme de forma espontânea, especialmente entre jovens adultos.

No entanto, a crítica especializada apontou problemas graves no filme, como a superficialidade do roteiro, a romantização de comportamentos abusivos e a falta de profundidade emocional dos personagens.

Comparando 365 Dias com clássicos da máfia

Enquanto 365 Dias utiliza a máfia como pano de fundo para uma história romântica, clássicos como O Poderoso Chefão, Scarface e Os Bons Companheiros exploram a máfia de maneira complexa e crítica, destacando seus dilemas morais, ambições e consequências.

O Poderoso Chefão (1972):

Considerado um dos melhores filmes de todos os tempos, O Poderoso Chefão, dirigido por Francis Ford Coppola, aborda a máfia como um sistema intricado de poder e lealdade familiar. A narrativa gira em torno da família Corleone, liderada por Don Vito (Marlon Brando) e Michael Corleone (Al Pacino).

  • Diferencial: Retrata a máfia de forma realista e moralmente ambígua, destacando os custos emocionais do poder.
  • Impacto: Ganhou três Oscars e moldou a percepção da máfia na cultura pop.

Scarface (1983):

Dirigido por Brian De Palma, Scarface conta a história de Tony Montana (Al Pacino), um imigrante cubano que ascende no mundo do crime em Miami.

  • Diferencial: Explora a ganância e a ambição desmedida, resultando em uma tragédia pessoal.
  • Impacto: Tornou-se um ícone cultural, especialmente no universo do hip-hop.

Os Bons Companheiros (1990):

Dirigido por Martin Scorsese, o filme narra a história de Henry Hill, um mafioso que decide colaborar com o FBI.

  • Diferencial: Mostra a máfia de maneira íntima e humana, equilibrando glamour e brutalidade.
  • Impacto: É considerado um dos filmes mais realistas sobre o tema.

A diferença com 365 Dias

Enquanto os clássicos da máfia exploram as complexidades morais e os dilemas existenciais de seus personagens, 365 Dias se concentra no apelo sensual e na fantasia. A máfia, nesse caso, é apenas um pano de fundo para a história de amor proibida.

Romances de máfia: um mercado em expansão

O sucesso de 365 Dias não é um caso isolado. Livros sobre máfia, especialmente romances eróticos, têm conquistado um público cada vez maior. Segundo dados da Amazon, o subgênero Mafia Romance cresceu 75% em vendas nos últimos dois anos. Autoras como Cora Reilly, Natasha Knight e T.L. Swan lideram as listas de mais vendidos, com avaliações médias acima de 4 estrelas.

No TikTok, o impacto é ainda mais evidente. Hashtags como #MafiaRomance acumulam mais de 1 bilhão de visualizações, enquanto leitores compartilham resenhas, trechos favoritos e recomendações. O apelo do gênero está em sua capacidade de misturar perigo e paixão, criando histórias intensas e escapistas.

O que dizem os especialistas?

A psicóloga Amanda Soares explica que o sucesso de 365 Dias está ligado à fantasia de controle e segurança emocional. “Massimo representa o arquétipo do homem poderoso e protetor, que desperta o desejo por um parceiro forte e confiável. Mesmo que a dinâmica apresentada no filme seja problemática, ela ativa fantasias que muitas pessoas não vivenciam na realidade.”

Por outro lado, o psicólogo Marcos Lemos alerta para os perigos dessas narrativas. “Quando o abuso e o controle são romantizados, existe o risco de normalizar comportamentos tóxicos. O problema não está na fantasia, mas na falta de uma crítica mais aprofundada sobre as implicações dessas relações.”

A socióloga Carla Mendes também destaca a importância do contexto cultural. “A popularidade de 365 Dias reflete uma sociedade que ainda valoriza dinâmicas patriarcais. O filme, embora criticado, expõe questões que precisam ser debatidas, como o papel da mulher em narrativas de poder.”

O que funciona em 365 Dias? 

Apesar das críticas, 365 Dias possui elementos que explicam seu apelo ao público.

  1. Fotografia: As paisagens italianas, capturadas com maestria, criam uma atmosfera luxuosa e sedutora.
  2. Trilha sonora: A música desempenha um papel importante, com canções como “Feel It” de Michele Morrone se tornando hits globais.
  3. Química dos protagonistas: Michele Morrone e Anna Maria Sieklucka, apesar das limitações do roteiro, conseguem transmitir intensidade em suas interações.

O legado de 365 Dias

365 Dias é um fenômeno que transcende o cinema convencional, tornando-se um marco cultural por suas controvérsias e popularidade. Comparado a clássicos como O Poderoso Chefão e Scarface, o filme adota uma abordagem mais escapista e sensual, capturando um público que busca entretenimento e fantasia, mesmo que isso signifique ignorar aspectos éticos e técnicos.

O sucesso de 365 Dias reflete uma tendência maior no mercado de entretenimento: o fascínio pelo poder, paixão e perigo. Seja no cinema ou na literatura, a máfia continua a dominar o imaginário coletivo, mostrando que, mesmo em narrativas problemáticas, há um espaço cativo no coração do público. A questão que fica é: como equilibrar o apelo da fantasia com a responsabilidade cultural?

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