Goiânia: A construção da cidade planejada e seu legado arquitetônico

A capital goiana foi fundada durante intervenções políticas na Era Vargas

Ana Karoline
Por Ana Karoline
Goiânia: A construção da cidade planejada e seu legado arquitetônico

A cidade de Goiânia foi fundada através de intervenções políticas e sob o comando do médico, Pedro Ludovico Teixeira, nomeado interventor do estado de Goías, colocaram em prática o projeto de mudança da capital. Em 1930, a revolução liderada por Getúlio Vargas impôs uma renovação das lideranças políticas nacionais e regionais. No ano de 1932 foi organizada uma comissão que deveria realizar a escolha da melhor região para a qual a nova capital seria transferida. A escolha acabou sendo realizada em função de cidades que já existiam e, entre as opções existentes, Goiânia veio a ser definida nas proximidades da cidade de Campinas, hoje o mais antigo bairro da metrópole.  

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Vista

A construção de Goiânia foi um importante marco para o desenvolvimento de Goiás, assim como para toda a região Centro-Oeste do Brasil, em razão da centralidade implementada pela nova capital, em termos políticos e econômicos. Ela foi construída de maneira planejada, com áreas residenciais, comerciais, industriais e administrativas bem delimitadas. Além disso, o centro urbano foi concebido com inúmeros parques e áreas verdes.

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A partir do crescimento da mancha urbana da cidade, foram surgindo áreas de ocupação que não estavam previstas no projeto original, sendo inclusive notável na cidade, nos dias atuais, o fenômeno de conurbação com municípios vizinhos. A construção de Goiânia gerou ainda um intenso processo de migração para a região, e os vários grupos de imigrantes assentados na cidade possibilitaram o desenvolvimento local e o enriquecimento cultural goianiense.

Construída inicialmente para 50 mil habitantes, Goiânia experimentou um crescimento moderado até 1955. Entretanto, devido a uma série de fatores, como a chegada da estrada de ferro, em 1951, a retomada da política de interiorização de Getúlio Vargas, de 1951 a 1954, a inauguração da Usina do Rochedo, em 1955, e construção de Brasília, de 1954 a 1960, cerca de 150 mil pessoas já habitavam a nova capital em 1965. Apenas da década de 1960, Goiânia ganhou cerca de 125 novos bairros e tudo isso exigia mais infraestrutura, energia, transporte e escolas. 

Uma fígura importante na construção de Goiânia foi Attilio Corrêa Lima, engenheiro-arquiteto e paisagista, responsável pelo plano urbanístico da capital goiana. Ele trouxe consigo o estilo Art Déco, que estava associado ao luxo e à modernidade, além de ter se inspirado jardins no modelo das cidades-jardins do urbanismo francês para definir a estrutura de Goiânia. 

Palácio

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Considerada a primeira capital planejada no início do século XX e idealizada pelo primeiro urbanista brasileiro de formação acadêmica, onde estudou Urbanismo em uma das escolas mais tradicionais, o Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris – Sorbonne. A cidade foi um canteiro experimental da nova técnica do concreto armado, utilizado em grande escala para a construção dos primeiros edifícios modernos. É bastante relevante lembrar que Attilio trouxe além de concepções projetuais inovadoras, também técnicas construtivas ainda desconhecidas no Brasil. 

Attilio apresentou o projeto da cidade a Pedro Ludovico, que previa a organização do traçado da cidade, projetos de infraestrutura, plano diretor, projetos arquitetônicos dos principais edifícios públicos e casas para funcionários, além da estruturação administrativa. Após a execução de relatórios e da escolha do sítio, Attilio Corrêa Lima não questionou a região escolhida pela comissão técnica, que foi outra, porém discordava do local indicado para implantar a área central da nova capital. O arquiteto projetou o núcleo inicial mais próximo da rodovia (atual Avenida Anhanguera) que então fazia a ligação entre Campinas – cidade que deu apoio à construção de Goiânia – e a cidade de Leopoldo de Bulhões, onde chegava a ferrovia. 

Panorama

A cidade possui 21 bens tombados pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Entre eles estão o belo Teatro Goiânia, o Grande Hotel, o Museu Pedro Ludovico Teixeira, a Estação Ferroviária, o Palácio das Esmeraldas, entre outros. Confira abaixo alguns desses patrimônios:

Grande Hotel

Grande

Localizado no centro da cidade, o hotel foi inaugurado em 1937 e conta com 60 quartos, sendo quatro de luxos, distribuídos em três pavimentos. Considerado um dos três primeiros edifícios de Goiânia, o lugar recebeu fíguras importantes como o presidente da República, Getúlio Vargas, o antropólogo Claude Lévi-Strauss, o poeta chileno Pablo Neruda, o famoso escritor brasileiro, Monteiro Lobato, entre outros hóspedes que marcaram a história do hotel.

Da construção original resta apenas a estrutura da fachada, tendo o interior sido descaracterizado ao longo dos anos. As instalações passaram por reforma em 2004, quando o Grande Hotel sediou o evento Casa Cor. Hoje o espaço abriga o Núcleo Centro Cultural Grande Hotel, onde são realizados cursos e qualificações para jovens, adultos e crianças. O Núcleo integra também a Secretaria Municipal de Cultura (Secult).

Teatro Goiânia

cine

Inaugurado em 1942, o Teatro Goiânia é o mais nobre e tradicional espaço cultural da cidade, integrado ao conjunto arquitetônico do início da capital. Trata-se de projeto do arquiteto Jorge Félix, que o concebeu em estilo art déco. Sua construção teve início em 1940 e sua inauguração oficial se deu em 14 de julho de 1942. Anteriormente chamado de Cine-Teatro Goiânia, o local foi criado por Pedro Ludovico como parte do seu plano de desenvolvimento para a cidade. Além de contar com moderna aparelhagem cinematográfica (equipamentos importados, o que havia de mais sofisticados na época), acomodações confortáveis, o espaço que passou a ser conhecido apenas como Cine Goiânia mantinha programação de filmes nacionais e estrangeiros em sintonia com o eixo Rio-São Paulo. 

Sua última reforma, foi em 1998, com reinauguração em 28 de novembro. Na reforma geral, recebeu 100 novos lugares. Com isso, passou a acolher 710 pessoas. Outro aspecto de reforma foi a retirada da antiga lanchonete que funcionava em suas dependências, descaracterizando o projeto original. Em 2003, o espaço cultural foi tombado como patrimônio histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). 

Museu Pedro Ludovico 

Museu

A construção foi realizada nos anos 30, mediante a execução do projeto de Atílio Corrêa Lima, renomado arquiteto e urbanista responsável pelo projeto da nova capital do Estado de Goiás. O casarão é um destaque na história arquitetônica de Goiânia, sendo um marco da modernidade anunciada e símbolo da ruptura com o passado colonial da antiga capital. Um mês após a morte de Pedro Ludovico em 1979, o Governo do Estado de Goías sancionou a Lei n°8690 que previa a criação de um museo em homenagem ao fundador de Goiânia, com sede na residência oficial de Ludovico.

Tem como objetivo preservar, conservar, restaurar e ampliar todo o acervo, ligado à história de Goiânia. Assim, o museu visa proporcionar ao pesquisador um ambiente propício ao resgate da memória da capital de Goiás. A casa manteve seus padrões originais como os móveis, biblioteca e os demais objetos usados pela família.

Estação Ferroviária

estação

Inaugurada em 1950, a antiga Estação Ferroviária de Goiânia funcionou até a década de 1980, recebendo trens de cargas e passageiros da Estrada de Ferro Goyaz. Ela é um dos mais importantes edifícios representativos do Acervo arquitetônico e urbanístico Art Déco de Goiânia, tombado pelo Iphan desde 2002. O pavimento central do edifício possui dois relevantes afrescos de autoria de Frei Nazareno Confaloni, pintor e muralista, reconhecido como pioneiro da arte moderna em Goiás. 

Créditos da imagem de capa: Michel

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