Cidade mais simétrica do Brasil é exemplo de urbanismo planejado no coração do país

Com uma malha urbana desenhada milimetricamente, Palmas, capital do Tocantins, é considerada a cidade mais simétrica do Brasil. Fundada em 1989, no centro geográfico do país, ela se tornou referência em planejamento urbano e qualidade de vida.

Fernanda Cappellesso
Por Fernanda Cappellesso
Cidade mais simétrica do Brasil é exemplo de urbanismo planejado no coração do país
O Lago de Palmas complementa a paisagem da capital mais simétrica do Brasil, integrando lazer, natureza e urbanismo planejado às margens do Tocantins.

No centro exato do Brasil, uma cidade planejada desde o traço do arquiteto se tornou referência nacional em simetria urbana e qualidade de vida. Fundada em 20 de maio de 1989, Palmas, capital do Tocantins, é a mais nova das capitais brasileiras e foi criada para ser a sede administrativa do mais recente estado da federação, surgido após a promulgação da Constituição de 1988.

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Com uma malha urbana estruturada em eixos longitudinais e transversais, vias largas e quadras funcionais, Palmas é considerada a cidade mais simétrica do Brasil, superando outras referências de urbanismo como Brasília (DF) e Boa Vista (RR). O seu traçado, feito com precisão geométrica, integra funcionalidade, estética e organização, o que a torna um estudo de caso para urbanistas e arquitetos do país.

A origem: uma capital planejada concebida do zero

Quarteirões simétricos, rotatórias e conceito arquitetônico da antiguidade

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O estado do Tocantins foi criado oficialmente em 5 de outubro de 1988, com a promulgação da nova Constituição Federal, após mais de um século de reivindicações por parte das populações do norte de Goiás. Essas comunidades sentiam-se abandonadas pelas políticas públicas estaduais, sofrendo com a precariedade da infraestrutura, o isolamento e a falta de representação política. A divisão territorial foi um marco histórico, resultado de mobilizações sociais, lideranças políticas locais e do fortalecimento da ideia de que o desenvolvimento regional exigia autonomia administrativa.

Diante da criação do novo estado, a definição de uma capital tornou-se prioridade. Miracema do Tocantins, então município estruturado, foi escolhida como capital provisória, abrigando temporariamente os órgãos administrativos do novo governo estadual. No entanto, logo surgiu a ideia de fundar uma cidade do zero, no coração geográfico do Tocantins, que simbolizasse o nascimento de uma nova era para a região.

Essa visão foi liderada pelo então governador José Wilson Siqueira Campos, que articulou política e logisticamente a criação de uma capital planejada, nos moldes de Brasília. Ele escolheu pessoalmente a localização da futura cidade em um ponto estratégico: às margens do Rio Tocantins, aos pés da Serra do Lajeado, um local que permitia fácil acesso ao norte e ao sul do novo estado.

A fundação simbólica de Palmas ocorreu em 20 de maio de 1989, menos de um ano após a criação do estado. Na ocasião, Siqueira Campos fincou uma estaca no solo e declarou: “Aqui nasce Palmas”. O ato, realizado onde hoje está a Praça dos Girassóis, reuniu cerca de 10 mil pessoas e marcou o início das obras da nova capital. Essa praça, aliás, é uma das maiores do mundo em extensão, com 571 mil metros quadrados, e concentra prédios dos Três Poderes, monumentos históricos e marcos da identidade tocantinense.

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O projeto urbanístico de Palmas foi elaborado pelos arquitetos Luiz Fernando Cruvinel Teixeira e Walfredo Antunes de Oliveira Filho, integrantes do escritório GrupoQuatro Arquitetura. A proposta se inspirou nos princípios do urbanismo modernista, influenciado por Le Corbusier e pela experiência de Brasília. Os principais conceitos aplicados foram:

  • Setorização funcional: áreas distintas para comércio, governo, moradia e serviços públicos;

  • Mobilidade planejada: largas avenidas e vias estruturantes com eixos de deslocamento rápido, priorizando o transporte rodoviário;

  • Simetria axial e geometria urbana: organização dos bairros em quadrantes regulares, com um núcleo central cívico-administrativo;

  • Integração com a paisagem natural: aproveitamento da topografia da Serra do Lajeado e das margens do Rio Tocantins.

Além da funcionalidade, o projeto buscava criar um ambiente urbano com qualidade de vida. Prevê-se desde o início a criação de áreas verdes, praças públicas, acessibilidade, espaços para atividades culturais e educação. Palmas nasceu com vocação para ser uma cidade sustentável, ainda que os desafios de crescimento e urbanização tenham, ao longo dos anos, exigido ajustes no plano original.

Nos primeiros anos, a construção de Palmas envolveu força-tarefa de operários, trabalhadores temporários e servidores públicos, muitos dos quais viveram em acampamentos improvisados durante a fase inicial. A estrutura da cidade cresceu rapidamente: em 1990, o governo estadual já havia transferido a maior parte dos órgãos administrativos para o novo território urbano.

A escolha de uma capital planejada no centro do estado teve um efeito importante na integração territorial do Tocantins. Palmas se tornou um ponto de equilíbrio geográfico e político, conectando o sul agrícola ao norte amazônico, e impulsionando a ocupação ordenada de uma região que até então vivia à margem do desenvolvimento nacional.

Atualmente, Palmas é a capital estadual mais jovem do Brasil, com pouco mais de 300 mil habitantes, e representa um dos principais exemplos de urbanismo planejado pós-Brasília. Seu crescimento urbano continua seguindo diretrizes do plano diretor original, ainda que adaptado às transformações sociais, econômicas e ambientais do estado.

Simetria e urbanismo funcional

Palmas foi desenhada a partir de dois eixos principais: a Avenida Teotônio Segurado (no sentido norte-sul) e a Avenida Juscelino Kubitschek (leste-oeste). A partir desses dois vetores, a cidade se organiza como uma malha geométrica composta por setores administrativos, residenciais e comerciais.

As quadras seguem uma lógica numérica e territorial, divididas em ARS (Área Residencial Sul), ARN (Área Residencial Norte), ACSU (Área Comercial Sul) e ACNU (Área Comercial Norte), além dos setores industriais e áreas institucionais. Isso permite uma distribuição planejada de equipamentos públicos, serviços e moradias — o que facilita a navegação pela cidade e torna o espaço urbano altamente funcional.

No coração da cidade, está a monumental Praça dos Girassóis, com 571 mil m², sendo a maior praça pública da América Latina e uma das maiores do mundo. Ali estão concentrados o Palácio Araguaia (sede do governo estadual), a Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça, o Memorial Coluna Prestes, a Catedral de Palmas, entre outros monumentos. A simetria da praça é visível de cima: os edifícios se distribuem em equilíbrio perfeito ao redor de eixos centrais, compondo o centro cívico de Palmas.

Crescimento populacional planejado da cidade simétrica

Em 1991, Palmas possuía pouco mais de 24 mil habitantes. Já em 2022, segundo o Censo do IBGE, a população chegou a 313.349 pessoas, o que representa um crescimento de mais de 1.200% em três décadas. Mesmo com o aumento populacional expressivo, a cidade conseguiu manter sua organização urbana, graças ao planejamento inicial que previu áreas de expansão e ocupação progressiva.

Palmas é hoje a capital estadual menos populosa do Brasil, mas lidera rankings de qualidade de vida na região Norte. De acordo com o Atlas da Vulnerabilidade Social do Ipea, Palmas apresenta índices acima da média nacional em acesso à educação, saúde e mobilidade urbana. A cidade também tem uma das melhores coberturas de saneamento básico da região: 99% das residências urbanas têm acesso à água tratada, e 95% à coleta de lixo regular.

Educação, cultura e economia em expansão na cidade simétrica 

A cidade abriga importantes instituições de ensino superior, como a Universidade Federal do Tocantins (UFT), o IFTO (Instituto Federal do Tocantins) e centros universitários privados como o CEULP/ULBRA. Esses polos formam milhares de estudantes por ano e alimentam o setor de serviços, que é o principal motor da economia local.

A economia de Palmas é baseada em comércio, serviços, turismo e setor público. Em 2022, o estudo “Melhores Cidades para Fazer Negócios” da Urban Systems posicionou Palmas entre as 10 melhores cidades do Brasil nos setores de comércio e serviços entre municípios com mais de 100 mil habitantes.

Na área cultural, destaca-se o Festival Gastronômico de Taquaruçu, que movimenta o turismo regional, valoriza a culinária típica e atrai visitantes de todo o país. A cidade também abriga museus, centros culturais e eventos esportivos, além de ser porta de entrada para o ecoturismo no Jalapão, destino cada vez mais procurado por turistas brasileiros e estrangeiros.

Desafios e futuro promissor da cidade simétrica

Apesar dos avanços, Palmas enfrenta desafios típicos de cidades jovens: melhoria da mobilidade urbana, ampliação dos serviços públicos em regiões periféricas e combate à desigualdade social. Entretanto, sua estrutura urbana oferece um diferencial estratégico. A cidade conta com uma das melhores relações entre área construída e espaço verde por habitante no país, o que favorece ações sustentáveis e o crescimento ordenado.

Com uma população ainda em expansão e planejamento urbano consolidado, Palmas desponta como referência entre cidades médias brasileiras. A capital tocantinense é um exemplo de como é possível aliar desenvolvimento urbano com qualidade de vida, desde que haja visão de longo prazo, política pública bem orientada e um projeto urbanístico pensado para o futuro.

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