Quem é o médico fundador da primeira faculdade de medicina em Goiânia
Responsável pela fundação já foi proprietário da TV Anhanguera; saiba mais

A fundação da primeira Faculdade de Medicina de Goiás se confunde, de maneira intrínseca, à trajetória de Francisco Ludovico de Almeida Neto, uma das figuras centrais na construção da Universidade Federal de Goiás.
Filho do ex-governador do estado, José Ludovico de Almeida, nasceu em Itaberaí – município localizado a cerca de 90 km de Goiânia – em 22 de fevereiro de 1927. Desde muito novo, Francisco nutria uma paixão genuína pelo cuidado com o próximo.
Seus ideais o levaram à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, na antiga Praia Vermelha. Para se manter no Rio e concluir sua formação, foi preciso trabalhar.
Obstáculos e objetivos da formação
Ainda no primeiro ano de faculdade, Francisco prestou concurso para interno efetivo de anatomia. No quinto ano de faculdade, realizou o concurso auxiliar acadêmico da Prefeitura. Todo o seu trabalho lhe rendia quase quatro contos de réis – o equivalente a R$ 4 mil -, sendo o suficiente para morar em um apartamento.
Como interno do professor Alfredo Monteiro, no Hospital Moncorvo Filho (RJ), se qualificou para diferentes bolsas de estudos. A primeira, na Suécia, onde ficou por pouco tempo. Na volta, decidiu fazer um curso em Paris e, em seguida, desembarcou no Estados Unidos.
“Fiquei nove meses em Nova York, mais um mês em Cleveland e em Houston. Na volta, fui aprovado pela Universidade do Brasil para o cargo de auxiliar de ensino de técnica operatória, com direito a fazer residência nos Estados Unidos e continuar como professor da faculdade”, relatou em entrevista histórica ao Jornal Opção.
Como médico, voltou à Goiânia na década de 1950, aos 23 anos, pronto para ir fazer a tal residência médica nos EUA. Foi quando sua mãe lhe sugeriu que lutasse por uma faculdade de medicina em Goiás.
“Voltei ao Rio, desisti do internato no exterior e da indicação para auxiliar de ensino da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha e retornei a Goiás”.
Faculdade de Medicina da UFG
Graças à sua perseverança, ao esforço do pai – então governador do Estado, e com apoio direto do candidato a presidente Juscelino Kubitschek, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás foi fundada em abril de 1960.
“Falei várias vezes com Juscelino Kubitschek. Ele veio a Goiânia e escolheu o lugar da faculdade de medicina, na Praça Universitária, quando ainda era candidato a presidente”.
Visto como uma das figuras centrais na formação da UFG, Dr. Francisco foi empossado como o primeiro vice-reitor da instituição, acompanhando o então reitor Colemar Natal e Silva.
Antes que o mandato fosse concluído, Francisco foi exonerado em função do Golpe de Estado no Brasil. No ano de 1968, foi acusado de práticas de comunismo. Uma das causações usadas contra ele foi a nomeação de comunistas como professores da Universidade.
O processo foi arquivado por Médici que, na época, atuava como chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI). Ainda assim, o médico e professor foi impedido de exercer cargo público.
Afastado da Universidade começou uma nova luta, a fim de criar um Hospital.
Fundação do Hospital Santa Genoveva
A ideia nasceu em 1964, logo após a Revolução. Seu primeiro passo foi procurar o então secretário do Planejamento, Reis Veloso, para quem apresentou o projeto de construção de um hospital de clínicas em Goiás.
O espaço de multiatendimentos contaria com o trabalho integral dos professores. Ali poderiam atender, inclusive, seus pacientes em formato particular. O pagamento efetuado pelos clientes ajudariam na manutenção de custos do hospital.
Após a reunião de quatro horas com Reis Veloso, Francisco foi avisado sobre a falta de interesse do governo em valorizar as universidades brasileiras. “Não temos condições de construir esse hospital”, pontuou o secretário.
Tal narrativa mudou apenas quando duas empresas dos Estados Unidos declararam interesse em construir o hospital. A única exigência era a de que os 10 milhões que seriam gastos na obra constassem do orçamento da União.
Mais uma vez, o Dr. Francisco foi orientado pela gestão do Estado a descartar o projeto.
“Saí de lá certo de que não poderia contar com o apoio do governo para construir o hospital. Então pensei em fazer um hospital de comunidade, que tivesse um núcleo central e pudesse se expandir depois. Foi então que surgiu a ideia de criar a Clínica Santa Genoveva”, contou o médico.
Em negociações com Altamiro de Moura Pacheco, o insistente Francisco comprou uma área de 123 mil metros quadrados no Setor Santa Genoveva. “Procurei um arquiteto, e ele fez o projeto de um hospital modular, passível de crescer de acordo com a demanda”, declarou.
Na época de inauguração, o Hospital funcionou com 20 apartamentos divididos entre clínica e cirurgia geral, cardiologia, ginecologia e obstetrícia. A princípio, o local que funcionava com atuação de cinco médicos, passou a funcionar com 120, no ano de 2014.
Desde 2017, o Hospital se encontra permanentemente fechado devido a processo de falência.