Saúde emocional das mães impacta diretamente o comportamento dos filhos, diz especialista
Estudos reforçam ligação direta entre bem-estar materno e desenvolvimento emocional das crianças

Em um momento em que muitas famílias buscam entender como criar filhos mais seguros e emocionalmente preparados, a ciência tem reforçado um ponto central: o comportamento das crianças está diretamente ligado à saúde emocional das mães.
Mais do que regras ou métodos de educação, o que molda uma criança é o ambiente emocional em que ela cresce. E esse ambiente começa, principalmente, na forma como a mãe lida com suas próprias emoções no dia a dia.
Uma pesquisa da Universidade de Manchester, publicada na revista científica BMJ Open, analisou dados de mais de 3 mil famílias ao longo de mais de uma década e encontrou uma relação direta entre o estado emocional das mães e o bem-estar dos filhos.
O estudo apontou que sentimentos de sobrecarga, ansiedade e infelicidade materna estão associados a sintomas semelhantes nas crianças, como nervosismo e preocupação.
Os pesquisadores ainda identificaram um ciclo: o sofrimento emocional das mães pode influenciar o dos filhos, que por sua vez também impacta novamente o estado emocional materno.
Cenário acende alerta
Além da influência comprovada, os dados mostram que a saúde mental das mães vem piorando nos últimos anos.
Um levantamento publicado na revista JAMA Internal Medicine revelou que o número de mães que classificam sua saúde mental como “excelente” caiu de 38% para 26% entre 2016 e 2023. Já os relatos de saúde emocional “regular” ou “ruim” aumentaram no mesmo período.
Outro dado relevante aponta que 49,1% das mães relatam viver em um “limbo emocional”, refletindo sobrecarga e dificuldade em lidar com a rotina.
O exemplo emocional dentro de casa
De acordo com a psicóloga Caroline Dias, o comportamento das crianças está diretamente ligado ao que elas observam.
“A relação que essa mulher construiu com as próprias emoções ao longo da vida influencia diretamente a forma como ela educa, acolhe e se conecta com seus filhos. Mas não se trata de ser perfeita, e sim de ser consciente. Os filhos aprendem muito mais com o que vivenciam do que com o que escutam”, explica.
Esse processo começa muito antes da maternidade. Experiências vividas ao longo da infância e da vida adulta moldam a forma como a mulher lida com sentimentos e relações, e isso tende a ser refletido na criação dos filhos.
Especialistas reforçam que ser uma mãe emocionalmente saudável não significa não falhar ou não sentir emoções negativas.
“Significa reconhecer, acolher e aprender com as próprias emoções. É esse movimento que ensina, na prática, como lidar com a vida”, afirma Caroline.
Quando emoções são reprimidas ou ignoradas, isso pode gerar insegurança no ambiente familiar. Já o autoconhecimento e o cuidado com a saúde mental funcionam como um modelo positivo para as crianças.
Impacto que atravessa gerações
A influência emocional dentro de casa não acontece de forma isolada. Ela pode se repetir ao longo das gerações, criando padrões que passam de mãe para filho.
Por isso, ferramentas como a terapia são apontadas como importantes aliadas nesse processo de mudança, ajudando a identificar comportamentos, ressignificar experiências e construir novas formas de lidar com emoções.
“Ao investir na sua saúde mental, você não está apenas cuidando de si. Está reescrevendo o futuro emocional dos seus filhos”, destaca a especialista.
Diante dos dados e das evidências científicas, a reflexão vai além da rotina e das responsabilidades. Olhar para a própria saúde emocional deixa de ser algo secundário e passa a ocupar papel central dentro da família.
“O verdadeiro legado de uma mãe não está apenas no que ela faz pelos filhos, mas no exemplo emocional que ela deixa. É esse exemplo que sustenta, fortalece e prepara para a vida”, completa.
