R$ 143 bilhões já deixaram de circular na economia brasileira por causa das bets, aponta estudo
Levantamento liga avanço das apostas online ao aumento do endividamento, da inadimplência e da pressão no orçamento das famílias

As bets, famosas apostas esportivas online, passaram a ocupar um espaço cada vez maior no bolso dos brasileiros e já provocam impactos diretos no consumo e na economia do país. Um levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) aponta que cerca de R$ 143,8 bilhões deixaram de circular no varejo brasileiro entre janeiro de 2023 e março de 2026 por causa das plataformas de apostas, conhecidas como bets.
O crescimento acelerado do setor acontece em um momento em que o Brasil registra melhora em indicadores como desemprego e inflação, mas enfrenta aumento histórico no endividamento das famílias.
Segundo dados do Banco Central, o comprometimento da renda familiar atingiu 49,9% em fevereiro deste ano, maior patamar desde o início da série histórica, em 2005. Ao mesmo tempo, o país chegou à marca de 73 milhões de inadimplentes.
Crescimento das bets mudou hábitos de consumo
Impulsionadas pela popularização do Pix e pela regulamentação do setor, as apostas online cresceram rapidamente no Brasil nos últimos anos.
Hoje, o mercado movimenta entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês e já colocou o país entre os maiores mercados globais de apostas esportivas.
Especialistas afirmam que o avanço das bets passou a disputar diretamente o orçamento das famílias, principalmente entre consumidores de menor renda.
Segundo Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia da Tendências Consultoria, o impacto vai além do entretenimento digital.
“O avanço das apostas online deve ser visto como mais do que um fenômeno conjuntural. O que observamos é uma nova dinâmica de competição pelo orçamento disponível, especialmente nas faixas de menor renda.”
Estudo aponta aumento da inadimplência
Dados analisados pela CNC mostram que o crescimento das apostas coincidiu com a piora dos indicadores financeiros das famílias brasileiras.
O estudo aponta que, sem a expansão das bets, o nível de endividamento teria passado de 65% para 67% após 2023. O índice observado, porém, chegou a 70%.
Outro ponto que chamou atenção foi o crescimento da inadimplência severa, situação em que famílias afirmam não conseguir pagar as contas.
Segundo Myrian Lund, planejadora financeira e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), parte desse cenário está ligada ao uso crescente de crédito emergencial.
“O aumento da inadimplência está muito ligado ao tipo de crédito que as famílias passaram a acessar, como rotativo do cartão e cheque especial. Mas as apostas contribuem para piorar essa situação porque desviam parte da renda disponível.”
Brasil já está entre maiores mercados de apostas do mundo
A CNC estima que mais de 25 milhões de brasileiros realizaram apostas em 2025, o equivalente a cerca de um em cada seis adultos no país.
Já um estudo realizado pela Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting projeta que o mercado de bets deve gerar receita bruta de R$ 37 bilhões em 2026.
Enquanto o setor segue em expansão, economistas alertam para os impactos no varejo, no consumo das famílias e no aumento das dívidas em todo o país.
*Com informações: Forbes Brasil
